Tradicional Escola de Capoeira Celeiro de Bamba corre risco de fechar as portas por falta de políticas públicas

Por Karen Póvoas (Mestre Celebridade)-Gestora Cultural da Escola de Capoeira Celeiro de Bamba

 

“Imaginar não ter mais esse espaço é o mesmo que enxergar que inúmeros sonhos ficarão pelo meio do caminho…” depoimento de Mariane, 21 anos, aluna do projeto ‘Capoeira para Todos’.”

Sabe quando um lugar lhe traz memórias e histórias importantes de sua vida? Um lugar de resistência cultural que lhe traz sentimento de pertencimento? É assim como nos sentimos ao estar na sede da Escola de Capoeira Celeiro de Bamba do grupo Cordão de Ouro, em Itabuna que recebe visitantes de várias regiões do Brasil e de outros países.

O espaço, considerado uma das referências culturais na cidade, é coordenado pelo mestre Ninja desde 2005. Na época, os próprios alunos ajudaram, em mutirão, a limpar e a organizar a sede. Estávamos todos eufóricos para usufruirmos de um espaço próprio, onde pudéssemos ter a autonomia de praticar, em qualquer horário, além da capoeira, outras manifestações culturais, como maculelê, dança afro, dança guerreira e samba de roda, além de promovermos oficinas de percussão, confecção de berimbaus, teatro, ensaios para os eventos anuais (Batucada), rodas de capoeira, bate papo, entre outras ações de preservação cultural.

Com a mudança da sede para a Rua Rui Barbosa, 530, a Escola Celeiro de Bamba passa a fortalecer o projeto de inclusão social “Capoeira para Todos” do qual foram beneficiados, ao longo dos anos, centenas de alunos de baixa renda matriculados em escolas públicas, bem como com deficiências auditiva e intelectual e com síndrome de down. As aulas gratuitas, antes ministradas em espaços públicos provisórios dentro de comunidades em vulnerabilidade social, passam a ser oferecidas também na sede. Dessa forma, promovemos a inclusão dos jovens ao estarem em contato com outros alunos de classes e raças diferentes, pois a Celeiro de Bamba entende que na roda de Capoeira somos todos iguais.

O espaço sempre foi mantido com recursos próprios, por meio de mensalidades dos alunos (que não são do perfil do projeto) e parcerias com a prefeitura durante alguns anos devido ao trabalho voluntariado. Com isso, conseguimos, em 2011, fazer uma pequena reforma no espaço, como pintura e reparos para sanar infiltrações e nada mais. Porém, em 2017, a Escola Celeiro de Bamba começou a sentir os efeitos negativos de uma série de episódios que aconteceram desde o início daquele ano. Primeiro, a mudança de gestor público provocou o rompimento das parcerias com os projetos culturais de vários grupos artísticos da cidade. O nosso projeto ‘Capoeira para Todos’ foi um deles, o que reduziu em mais de 50% a receita da Escola. Em seguida, o mestre Ninja, como dezenas de profissionais, perdeu o emprego como educador físico na secretaria de assistência social do município. Parte do aluguel era pago com o salário dele. Com a crise no país, muitos alunos pagantes deixaram de praticar a capoeira priorizando redução de despesas, o que provocou uma grande evasão.

Tal situação nos obrigou a encontrar saídas. Ao longo do ano de 2017 realizamos algumas ações no intuito de arrecadar dinheiro. Ajudaram, mas não foram suficientes para pagar o débito total que se acumulava. Também fomos em busca de parceiros, mas sem sucesso, já que a crise havia atingido praticamente todos os segmentos empresariais. Os meses foram passando e o ano de 2018 chegou com uma dívida de mais de 12 mil reais incluindo despesas com IPTU e água. A dona do espaço, muito compreensiva, esperou até quando pode e nos deu um prazo para regularizarmos a pendência, sob o risco de devolvermos o local.

Projeto de inclusão social transformando vidas

Se não conseguirmos quitar o débito, a Escola Celeiro de Bamba pode fechar as portas. Isso significa interromper um trabalho feito com muito amor e dedicação ao longos dos 13 anos neste espaço. Mais do que isso, significa que muitos sonhos ficarão pelo meio do caminho, como disse a estudante Mariane Oliveira Nunes, de 21 anos, uma das alunas do projeto há 4 anos. Atualmente, Mariane é estudante de História na UESC. Para ela, a decisão em cursar nível superior partiu da capoeira. O projeto lhe trouxe outros benefícios, como ter foco, disciplina e mais desenvoltura na comunicação com o público.

“A partir deste projeto passei a ter mais vontade de viver, de querer o meu bem e o bem dos outros, pois a capoeira sempre me deu forças, mesmo nos dias mais difíceis. E saber que tenho pessoas que acreditaram e acreditam em mim me faz perceber que eu não estou aqui por acaso. E o projeto acabou me dando não só essa força, mas tem me ensinado a cada dia o valor que a capoeira tem e a mudança que ela pode gerar em minha vida e na vida daqueles que também estão aqui. “Relata a estudante que considera a Celeiro de Bamba uma segunda família.

A grave situação financeira da Celeiro de Bamba não tinha sido divulgada até nos depararmos com os pés e mãos atados. Não tivemos outra alternativa a não ser tornar o problema público para que as pessoas pudessem ajudar. Mestre Ninja já estava quase em depressão. A capoeira é a vida dele. Ajudar o próximo sempre foi uma das virtudes dele que, desde a década de 90 faz trabalho voluntário com a capoeira, porque ele entende que estamos nesse ‘mundo’ pra plantar sementes, deixar um legado de pessoas mais solidárias.

“Em quase 30 anos de ensino da capoeira, nunca havia passado por uma situação como essa.  Toda luta que tive parece que foi em vão. É um absurdo numa cidade como Itabuna, que já foi destaque nacional por causa da violência entre jovens, não existir políticas públicas voltadas para mudar esse cenário. Fazemos nossa parte e o poder público? O que tem feito pra ajudar nosso coletivo? Nada!” Lamenta mestre Ninja que é Conselheiro Municipal de Políticas Culturais (CMPC), Conselho Nacional de Política Cultural (CNPC) e membro da Rede Nacional de Ação pela Capoeira.

E quem já praticou capoeira com mestre Ninja levou consigo um pouco das lições ensinadas por ele. A pedagoga Cínthia, de 28 anos, foi aluna do projeto “Capoeira para Todos” em 2009 e hoje é uma das voluntárias. Ela conta que não tinha nenhuma perspectiva de futuro até ser incentivada pelo mestre Ninja pra voltar a estudar e enfrentar as dificuldades em família, na época.

Por diversas vezes chegava nos treinos e ele (mestre Ninja) sempre relatava o que ele também enfrentou em sua vida e estava ali, apesar de tudo! Por conta deste ambiente familiar e acolhedor que me foi proporcionado no projeto,  tomei coragem pra fazer o vestibular, fui aprovada (na UESC) e a primeira pessoa que contei foi ao Mestre Ninja.

Só que Cinthia não sabia como pagar o transporte até a Universidade, e outra vez, mestre Ninja deu-lhe a oportunidade de estagiar com uma turma atendida pelo projeto. A bolsa remunerada de todo mês garantiu que Cínthia concluísse a graduação.

“Logo após (a graduação), pude retribuir um pouco dando aulas de capoeira para crianças e adolescentes em situação vulnerável. Como aluna do projeto ganhei um norte, orientações, uma família… E isso tudo foi de grande relevância em minha vida. Às vezes penso o que seria de mim hoje se não tivesse conhecido este projeto social. Por isso, sou grata por tudo, pelos ensinamentos da capoeira e pelo olhar atencioso do Mestre.”

A Paulistana Alda Maria Napolitano Sanchez treinou conosco por 5 meses neste ano, tempo suficiente para se encantar com o projeto do qual teve a oportunidade de conhecer durante o encerramento das aulas da turma com síndrome de down, em dezembro do ano passado.

Foi uma experiência incrível, de integração, compreensão e troca. Após a aula e a Roda de Capoeira celebramos com os estudantes e suas famílias, com bolos, salgados, sucos, providenciados pelas famílias dos estudantes. Foi um rito de muito acolhimento e alegria no encerramento de mais um ano de trabalho coletivo, voluntário e com extrema dedicação. A capoeira tem a habilidade de integrar as pessoas promovendo grande conexão entre aqueles que levam a capoeira no coração. A inclusão e o acolhimento acontecem verdadeiramente pela prática da capoeira, proporcionando para esses estudantes novas experiências e possibilidades de um futuro melhor.” Comenta Alda.

Campanha Salve a Nossa Escola #salveanossaescola

Não faz sentido parar aqui. Não podemos perder o espaço, muito menos os alunos que ao relatarem suas experiências deixam evidente o poder de transformação que a capoeira proporciona a cada um deles, seja física, motora, cognitiva, social, terapêutica ou cultural. E foram os próprios alunos que, no mês de março, tomaram a iniciativa de realizar a Campanha Salve a Nossa Escola (#salveanossaescola) com o foco principal arrecadar dinheiro através do site da Vakinha on Line. O site é confiável. A pessoa interessada em ajudar pode contribuir com qualquer valor por meio de boleto ou cartão de crédito. Ainda disponibilizamos o número da conta corrente da Escola, caso o contribuinte prefira depositar ou transferir. Ao final da vaquinha, prevista para julho, tornaremos pública e transparente a prestação de contas em agradecimento e respeito às pessoas que colaboraram. Caso não consigamos o valor para quitar o débito total, a campanha #salveanossaescola continuará.

“A utilização de um ambiente virtual para coletar dinheiro para a Celeiro de Bamba é uma forma de ampliar as possibilidades de captação de recursos, pois não serão somente as pessoas que conhecem a escola Celeiro de Bamba que poderão ajudar, mas sim todos aqueles que tiverem contato com o projeto, seja pelos vídeos ou pelos relatos, ampliando assim a possibilidade desse projeto ter continuidade.” Relata a aluna Alda que também percebeu a necessidade de realizar reformas na estrutura física da Celeiro de Bamba afim de deixar o ambiente mais acolhedor.

A reforma da Escola é outra demanda urgente que esperamos cumprir caso as contribuições da vaquinha ultrapassem o valor pedido ou alguma parceria surgir.Paralelo à vaquinha on line, estamos realizando outras ações com o mesmo objetivo, já que o valor montante que precisamos até julho é alto – R$20mil. Uma dessas ações acontecerá no dia 28 de abril, dia do BATUCADA, evento anual que mistura capoeira, maculelê, samba de roda, dança afro, além de batizado e troca de graduações dos alunos. Tal evento cultural tem a participação do presidente do grupo Cordão de Ouro, mestre Suassuna e outros mestres de várias regiões da Bahia. O Batucada contempla oficinas para capoeiristas com cobrança de uma taxa de R$ 30,00 por participante. A entrada para assistir às apresentações culturais é de 01 quilo de alimento não perecível que será doado às instituições filantrópicas de Itabuna, como sempre fazemos todos os anos, como parte das atividades do Projeto “Capoeira para Todos”. Após o evento cultural, a partir das 20h, haverá uma festa- BATUCADA FEST com a venda de ingressos a R$15,00. Todo dinheiro arrecadado durante o evento será revertido para o pagamento de alguns meses atrasados do aluguel do nosso espaço.

A capoeira nasceu como luta de resistência. Ela nos ensina a não desistir das dificuldades. E mesmo quem a pratica por pouco tempo percebe essa importância. O aluno Gilmar Bispo que escolheu a Celeiro de Bamba devido ao trabalho sério do mestre Ninja, relata:

“Pelo pouco tempo que pratico a capoeira consegui observar que nas aulas é ensinada a disciplina, que consiste em respeito ao próximo, companheirismo, empoderamento pessoal, pois os praticantes são sempre motivados pelos tutores a nunca desistirem e a superarem suas dificuldades.”

Não cruzamos os braços. Pelo contrário, estamos dispostos a continuar perpetuando nosso trabalho que tem mudado a vida de várias famílias. Para tanto, estamos em busca de parceiros que possam nos ajudar a manter o espaço funcionando e, consequentemente, o projeto de inclusão social. Se você se sensibilizou com a nossa causa, ajude-nos! Caso queira conhecer nossa sede, sinta-se à vontade pra nos visitar de segunda a sexta das 16h às 19H. A Escola Celeiro de Bamba fica na Rua Rui Barbosa, n. 530, próximo ao Colégio Galileu, centro de Itabuna. Acesse nossa página no facebook ou instagram entre em contato conosco pelos tels. (73) 9 9140-5350/ 9 9165-4045 (whatsapp) ou 9 8812-2209.

Se preferir, faça sua doação por meio de depósito ou transferência bancária:

Conta corrente – 41.129-9 / Ag. 0070-1 Banco do Brasil

Em nome de Valdir Rodrigues Miranda da Silva (Mestre Ninja)

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